Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Jornada Vertiginosa pelas Horas do Tempo

12:28 POR Ana Carolina Paiva 1 COMENTÁRIOS
Na profunda coisa levo minhas mãos
Despejo a alma lívida e combalida
Como os elementos
Que não invocam nomes para si
E ainda assim se impõem
Rasgando os dias e as noites

Resguardo quimeras
Esquivando do açoite
Obstinado em não acabar

Corrompo as prosaicas horas
Escorrendo fleuma
Vertendo alguma cor

O mundo em trânsito
Limitado por horríveis arestas
Que esquentam aquele lodo parado

Neste lugar
O que existe é inacabado
Aos pedaços
Vivendo de assombro
E sofreguidão cravada

Derramo mais uma vez, num bailado
Sem ser só eu
Sou também o outro, em par
Infinitamente maior, impregnado

Ouso apuro delicado em tua direção
Meu conluiado, meu igual!
Me atrevo a te enxergar
E a limpar tuas alquebradas asas
Duro e seco, como eu!
Sujo e descorado, como eu!
Germinando do árido chão, como eu!
Precipitando nos corpos animados
Para fazer o amor, como eu!

A trama de nossas mãos, entretidas no salto
Salto sobre os escarpados
Pensa na profundeza das vagas
Que se abalam no inexplicável oceano

A orquestra se levanta
E levantamos com ela
Dissolvendo em som

Fé despudorada
No voo de deuses
Assentando no ar, pairando
Sobre o elevado indistinto
De só bem quer

Que estranha fé... A minha, a tua?
Despedaçando assim a argamassa
Da razão?
Subvertendo aquela inerte lógica?

Mas onde isso tudo vai parar?

domingo, 17 de julho de 2016

Força de Maré

09:32 POR Ana Carolina Paiva 1 COMENTÁRIOS
Na ancestral cidade em festa
O intruso e fresco olhar
De duas crianças
Tu e eu, eu e tu

Viva e feiticeira
Luminosa cidade
O rio, cálido amante, brinca com ela

Tua mão me leva
Somos as pontes, os passeios, as catedrais
Assombrosas gárgulas!

-Vem, menina
Imergir comigo
Na vastidão do firmamento!
-E partilhar o vinho, o silêncio, o inefável
O ar, as formas, o som e o pão?

Noite lavradora
Caprichosa noite
Quente e radiosa
Implantando
Consanguíneos sonhos
Nas almas esfaimadas
De travessura e néctar
De pequenas coragens
Caminhos esteados
Em operosa palavra
Todinha ataviada
De bondades sem pudor

Contudo, vem a onda oceânica
Eclipsando a cidade
Tudo se dissipa do mapa
A pobre juventude
Fica velha e carcomida
Dançando sem parar
Com os diabólicos sapatinhos vermelhos

E brincas entre as vagas
E me amofinas
Quando viras o marujo
De doido e amaldiçoado Holandês Voador
Capturando arremedos de sereias
Que eu, boba, guardo...
Em frasquinhos de cristal

Mas se tua alegria é minha alegria
Confio, entrego e deposito
Com a fé deslavada
Daqueles que não têm avidez
De ser coisa alguma

E reinventamos ininterruptamente
A cidade devastada
Nestes anos de amor e labor
Brandindo a espada da liberdade
Espíritos livres, como as aves
Que vão e voltam
Num querer
Aberto e generoso

Diviso a onda altiva
Um escarcéu no coração 
Aclarando remotos desgostos
Que evanescem na baixa mar
Ante a figura palpável
Da criatura adorada
Continuamente rebrotando
Cá, nesta diminuta e remota ilha

domingo, 12 de junho de 2016

Quem tem o zap do Carlos aí? Uma crônica poema ou um poema crônica

08:43 POR Ana Carolina Paiva 4 COMENTÁRIOS

Sempre fui conectada com Carlos, o homem que eu amei. Tudo indicava que ele não fosse ficar para semente e assim foi. Um dia Carlos entregou o boné e caminhou entre as nuvens em linha não muito reta num passo só seu, meio dançante, os braços soltos quase deslocados do corpo, as pernas ágeis de andarilho, o semblante de uma brandura presente e concreta.

E a voz era a voz da juventude, da alegria, do silêncio de bailados submersos, única capaz de elevar aquele seu vitelinho do poço escuro dos temores e angústias da meninice. Então eu voava com ele, na vastidão das esperanças e das alegrias que me fazia despontar com seu olhar-luz do sol- caleidoscópico, colorido e candente!

Senti tanta saudade daquele meu amigo, o pai dessa menina Ana Carolina que cresceu e ainda precisava ficar por aqui para continuar aprendendo sobre esse mundo de coisas concretas, pesadas, de cores desmaiadas. Um mundo com tão pouco ar!

 –Volta papai e tira meus pés delicados de dentro desta lama aqui! E fez-se um silêncio impossível de se ouvir. Nenhuma palavra, nenhum telefonema, carta, SMS, Skype, Messenger, whatsApp, nada, nada!

O coração disparou, correu por paragens inóspitas de perdição e tristeza. Gosto sem sabor, desgosto só... Se meu amigo não estava mais aqui comigo, só a dor lancinante se sentaria em seu lugar. No assento vazio, o som do mais triste adágio...

Quem agora me enlevaria e mostraria aquele mundo fechado, teso, pegajoso com sua poderosa luneta mágica de amor, esperança e graça? E forjaria o barquinho de papel velejando comigo por entre as curvas sinuosas do rio que não interrompe e segue e pulsa e se lança e vive e vive e vive! Sabendo que se aglutinará à vastidão do oceano: Meu pai, meu amor, meu querido!

Posso te sentir por entre meus finos dedos como uma canção que aprendi a tocar no meu pianinho imaginário. Como estiveste o tempo todo aqui e agora e eu não pude te ver, valoroso coração apartado de mim?

O nosso barquinho continua a correr como sempre foi e sempre será, não é? Quando fecho os olhos, a mesma voz aluada e louquinha a plantar sonhos neste teu jardim que cresce e cresce e cresce!

O som é desarmônico, as almas deste mundo correm cegas e desconjuntadas para o abismo sem dar as mãos e eu sou só o teu bichinho frágil e diminuto! Ainda assim, meu pai, como a chuva que cai e o sol que levanta e se deita, como todas as estrelas que brilham mesmo entre as nuvens e os rebentos que nascem e emitem o seu som de vida posso ouvir o som do teu silencio em minha jornada naquele barquinho que projetaste. Tua voz, teu coração batendo. Olho para o caminho. Já agora não sou só aquele pianinho triste. Sou eu, você e toda a nossa orquestra correndo pelo rio que um dia será mar.




domingo, 28 de junho de 2015

Raiz

14:58 POR Ana Carolina Paiva 4 COMENTÁRIOS

Não posso mais brincar
De tua ausência
Ressentido caule
Como viver assim
Arrancada de tua presença?

Tua lacuna em mim
É pungente vazio
Princípio
De tudo que sou
Do pouco que sou
Raminho tenro
De tua estrutura
Pujante e admirável!

Galho de tua figueira
Fruto germinado
No anseio do amor
Que perseguias
Na querença
Da imaterial fortuna
Que acossavas
Com o ardor
De teus épicos heróis. – também os meus!
De capa e espada
Desgosto e regozijo
Sanha e brandura
Demarcados nas iluminuras
Do nosso tempo perdido

Por que imergistes tão profundo
Naquele poço escuro
Se era a ti que eu queria
Tanto, tanto...

Velava o teu sono
Carpindo o teu pranto
Mirrando ao teu lado
Tristeza que nos tomava
E me arrebatava para longe
Do calor do teu regaço

Como não te amar
Luzeiro candente
Janela aberta para o firmamento
Tecelã de tudo o que possuo
De humano e valoroso: o belo, o lírico, a linha do horizonte!

Como não te querer bem
Se levada por tuas mãos
Pude distinguir o que valia
Da sordidez
De só existir sem navegar?

Na lonjura de tua natureza telúrica
Na dureza de teu semblante circunspecto
Esperava...
Esperança minha, diminuta... Assente!
Mistério que guiava
A fome grande de tua afeição
Fome imponente! Fome só!
Soberana do convencido orgulho
Senhora da doída amargura

Com sorte, deixavas escorrer na pedra
O doce licor de teus trigueiros olhos
Mirando com brandura
Minhas primeiras horas
No mundo partido

Beleza e fragrância tuas
Flor atrevida e brutal
Melancólico jacinto
Não te apartes assim de mim
Que feneço e expiro e findo
Lívida e mutilada
Vitelinho desgarrado
Perseguindo o teu rastro

Sôfrego ardor
Tocando os dedos no ar
Teu rosto oculto na cerração

Ainda mais além
O espectro de tua coroa
Cravejada de sonhos espantados
E alegrias atravessadas por miragens

Das paragens
De teu sentido desencanto
Nem imaginas
Minha tonta e altiva rainha!
Que só tu
Com tudo o que carregas
De belo e assombrado

Contentamento e desesperança
Bondade e tirania
Aflição e bonança
Amor e dor
Só tu, dama adorada!

Carregas além da coroa
O cetro, o brocado de fios de ouro e a capa de arminho
Posto que vives, tão plácida e majestosa!
No mais alto, ilustre e gracioso
Recanto do meu coração...

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Tentação de Mariana

16:57 POR Ana Carolina Paiva 6 COMENTÁRIOS

Nos dias de levar a roupa lavada e engomada, abria os olhos antes de o sol nascer. Não dormia nada, virava na cama esperando inquieta pelo passeio na cidade. A botina e o lenço grosso sobre a cabeça não eram suficientes para afugentar o frio e o vento marítimos. Ia assim mesmo, sabendo que os dez quilômetros a pé com a trouxa na cabeça e o compasso convulso da caminhada lhe esquentariam o corpo.
Transfigurava-se em pura alegria quando avistava o farol ornado pelos primeiros raios de claridade. Sempre se dava de presente o tempo de subir a escadinha estreita do antigo farol para observar de perto o furor das ondas, o que lhe trazia um frêmito de morte. Era a prece do dia, o ânimo para enfrentar o pesado labor, os temores, as lacunas da existência.
Invadia o bosque de lavanda que se perdia no horizonte como um colossal tapete mágico. Misturavam-se à lavanda os odores das ervas de cheiro: alecrim, rosmaninho, tomilho, poejo, manjericão, manjerona, hortelã. Sabia distinguir todos os aromas. Colhia do mato as encomendas da mãe, da senhora e arranjava tudo nos saquinhos de chita.
Os raios de sol lhe afagavam o rosto juvenil e sardento, uns olhos cor de mel, uma pele muito alva. Tirava o lenço escuro e pesado, a casaca e a capa. Abandonava os braços nus sobre a relva. Ouvia ao longe um piano imaginário.
Gostava do vai e vem dos vendedores de rua, das vitrines de vestidos e trajes de gala, do colorido dos doces, do esplendor das igrejas, dos carros que agora se moviam sem os cavalos! Volta e meia estacava, arredia, querendo correr para os braços da mãe: - Mãezinha, na cidade as coisas escapam de Deus, é como se tivessem vida própria! 
Mariana conservava o seu temor pela cidade. Temor que adorava sentir. Era como quando estava no alto do farol na iminência de cair sobre o escarpado das rochas, sobre a exaltação das ondas. Seu corpo ganhava uma força e um sentido que ela ainda não podia compreender.
A primeira da lista de freguesas era Ana Ribas, a senhora que jamais sorria. Dona Ana que andava sempre de preto, mas tinha marido, pegava a trouxa e levava para os aposentos. Então sumia lá por dentro se esquecendo de Mariana que passava o tempo perdido olhando fixamente para a estátua da Virgem Maria sobre o altar de peroba entalhado. Uma virgem muito triste e chorosa aquela de dona Ana, segurando nos braços o filho morto. O manto azul com atilhos dourados. De sua pele de cera vertiam lágrimas brilhantes. Os cenhos franzidos de tanta tristeza e uma boca magnificamente fresca!
- Onde aprendeste a lavar tão bem uma roupa, menina? Deixaste sobre a erva?
Mariana se assustou com a entrada desabrida da dona, já que ainda estava imersa no olhar licoroso da imaculada.
- A senhora dona Ana saberia me dizer como uma mãe tão jovem poderia ter um filho já crescido assim?
Os olhos da moça cintilavam de verdadeira curiosidade. Então se lembrou da pergunta da freguesa que ficara suspensa:
- Deixei sim senhora, toda a manhã de ontem. Deixei quarando porque o sol estava muito bom.
- Ficaram mesmo clarinhas! Parece que não foram mãos humanas a trabalhar, que fizeste um feitiço. Deixa ver tuas mãos... Perfeitas, sem um calo, sem uma mancha. Isso é feitiço! Ou então é tua mãe que lava...
Mariana acendeu um sorrisinho manhoso só no canto esquerdo da boca:
- Gosto de bater nas roupas com força, só nas mais pesadas! As delicadas e claras eu esfrego, esfrego, coloco de molho no anil, depois deixo quarando. Quando a roupa está muito encardida é preciso ferver! E é só isso que eu faço dona Ana.
Finalizou o assunto com mais um breve sorriso de contentamento.
Dona Ana Ribas notava que Mariana descrevia o absorvente ofício como se recitasse um poema ou tangesse o piano forte, tamanha a sua desenvoltura. E tocava vez por outra nos cabelos revoltos da moça enquanto sorviam do chá: - Quem diria que aquele ratinho pelado que quase não vingou se tornaria essa admirável rapariga! E alva! Não sabes a sorte que tens de não ter nascido trigueirinha como tuas irmãs.
Depois de tagarelar por quase toda a manhã, Ana Ribas enfim consentiu que a moça fosse embora sem lhe oferecer nem o almoço nem a passagem do comboio.
Mariana seguiu para a igreja. Mesmo cansada e com fome esperou a hora da missa. Fechou os olhos meditando com Deus. Pediu pela alma dos mortos, pela saúde da mãe, pela orientação dos irmãos. E olhou no fundo dos olhos da Virgem sobre o altar principal.
Quando abriu os olhos reconheceu logo as pernas ajoelhadas ao lado das suas. Aquelas pernas pertenciam ao menino magro de sorriso ladino filho da herdeira do hotel mais refinado do lugar. Dimas farejava a presença de Mariana na cidade. Eram amigos desde sempre.
- Já estavas voltando para casa e nem fostes me visitar.
- Tua mãe não gosta de mim...
- O que é que isso importa? Eu gosto, por mim e por ela. Quer andar por aí?
Mariana e Dimas se demoravam pela cidade. Corriam lojas, parques e jardins para enfim serenarem no cemitério abandonado do promontório. Gostavam de sentir que sobre o promontório saliente invadiam também eles o habitat das sereias, dos navios fantasmas, dos gigantes e demônios marinhos.
- Com fome?
- Faminta!
Dimas abriu um alforje já bem surrado que usava a tiracolo sempre que saía no encalço da amiga. Ali cabia de tudo: pão, leite, geleia, frutas, paté de foie gras, vinho, queijo, docinhos variados.
- Pegastes comida para mim de novo? Roubaste da dispensa de tua mãe que eu sei!
- Roubei e sempre vou roubar. Sei que dona Ana te deixa com fome e faço o que tiver que ser feito para ver teu rosto lindo sempre corado, para que teu sorriso se ilumine a cada minuto. Absolutamente contentada e sem fome!
- Dimas...
- Não digas nada! Apenas coma este morango aqui! E colocava um morango vermelho com a haste verde dentro da boca da senhorita que mastigava rápido querendo falar:
- Como sabes que eu gosto de comer a haste?
- Observando você! Teus gestos, teu caminhar, o desenho de tuas palavras e a mágica do teu sorriso. Isso quando estou com sorte!
- Sabes que vou para o convento.
- Não queres ir. Isso é coisa daquele padre.
- Sim. Padre Gregório me incentiva. Ele vai falar com as freiras. Em breve serei noviça.
- Não digas mais nada que assim partes o meu coração.
Mariana se aproximou subitamente do rosto do amigo. Fez-se um sossego de pássaros cantando ao longe. Dimas olhou profundo nos olhos da moça que amava desde criança esperando que ela também proferisse o seu amor. O ar lhe escapava.
- Começa a escurecer Dimas. Vou-me embora.
- Não! Não podes... Não podes ir sozinha.
- Não te preocupes mais comigo.
E com a ponta dos finos dedos Mariana traçou sua própria cartografia da fisionomia do amigo na esperança de retê-la na memória e utilizá-la sempre que preciso, como uma ferramenta concreta.
 -O mar estará para sempre no fundo do azul destes teus olhos.
- Quando voltarei a te ver?
- Quando Deus quiser.
E colocou a capa, se afastando depressa numa marcha larga e irrequieta, alterando junto com o tempo que trazia súbito vento e tempestade.
Vinte dias se passaram. Não havia mais sinal do vendaval nem notícias de Dimas. Bateram na casa de dona Rosa mais cedo que o combinado. À porta, o pároco, um cocheiro e seus salamaleques, duas monjas do convento das Carmelitas. Mariana estava pronta para deixar a casa dos pais para sempre.
Dona Rosa não era de deitar choro fora, mas também não podia disfarçar seu desapontamento com a decisão da menina.
- Não me conformo com isso! Terminar tua vida trancada num convento. Fiz de tudo para te dar educação, para não teres que viver para sempre como uma lavadeira! A rapariga leu o Tesouro de Meninas padre Gregório! Moça preparada para fazer bom casamento ou ao menos ser uma boa preceptora!
O pároco olhava para o pé, o cocheiro fazia disfarçadas momices com as sobrancelhas, as freiras contemplavam o horizonte e Mariana mantinha uma quietude inabalável que bulia por dentro da mãe como uma dor sem remédio:
- Dá-me a tua benção agora, pois sem tua benção eu não sou nada. Dona Rosa, minha mãe, perceba o quanto é bom, eu por fim entendi o amor de Cristo e recebi o seu chamado. A senhora sabe o quanto eu era inquieta, buscava a beleza, os cheiros, as cores em tudo. A senhora ralhava comigo, pensava que eu tinha um parafuso a menos. Agora com Deus, eu posso ver o coração das coisas!
Dona Rosa que não era de chorar, desprendeu um mar de lágrimas. As mais salgadas e sentidas que jamais vertera em toda a vida. Enfim, abençoou a filha e se fechou num silêncio resignado. Encontrou forças no trabalho. Com sol ou chuva levava os filhos pequenos para o rio e lá cumpria seu labor diário: esfregar, quarar, bater. De domingo a domingo.
Mariana aprendeu a ficar em silêncio. Participava com bom ânimo das orações diárias, do estudo bíblico, das santas missas. A catequização das crianças era sua maior alegria. Acordava antes do sol, encontrava as outras companheiras. A vida em comunidade era boa, animada. As noviças dividiam um grande quarto cheio de camas.
Três meses se passaram no novo lar com as irmãs carmelitas. O inverno transformou a paisagem em nevoeiro, mas era possível avistar a ponta do velho farol quando ia limpar as janelas de vidro do andar de cima do convento. Sentiu saudades de dona Rosa, de seu pai, de seus irmãos. Sentiu saudades do menino Dimas, daqueles olhos que guardavam o mar. Sentiu saudades do farol perdido, do inebriante perfume de maresia.
-Vem Mariana, padre Gregório mandou chamar na sacristia!
- Acorda Mariana, padre Gregório quer ver-te antes da missa!
- Mariana hoje fica até mais tarde com as crianças de padre Gregório!
Estreitavam-se mais e mais os laços entre a noviça e o pároco da igreja de Nossa Senhora do Carmo. E Mariana já não desejava o farol, o mar, o vento nos cabelos.
- Padre Gregório pediu para ficar até mais tarde cuidando dos preparativos da semana da páscoa.
- O padre me chamou mais cedo hoje, madre.
- Vou confessar depois da catequese dos meninos lá na sacristia.
- A irmã pode ir sem mim. Vou meditar mais um pouco na capela do santíssimo.
Na despedida da catequese das crianças, o mesmo ritual: a noviça beijava a mão do padre. Um dia, não se satisfazendo com a cerimônia do gesto, o pároco pegou com as duas mãos o rosto da mocinha e beijou seus lábios trêmulos. Um beijo na boca!
Duas semanas foram suficientes para que o sacerdote passasse a reinar sobre o corpo e a alma da arrebatada freirinha que estava tão enfeitiçada de amor que já não via pecado quando ele a tomava para si em seu dormitório durante toda a madrugada. O venerado padre a quem ela devia respeito era ainda o homem a quem ela se oferecia com ardor e sem pudores. Sentia que seu amor era o mais puro e abençoado por Deus, mesmo quando ele a arrastava pelos cabelos e possuía seu corpo com uma violência bestial. O seu amor devotado justificava toda a ferocidade: Não eram assim o amor dos animais e a fúria das marés? E assim mesmo não eram obra de Deus?
Numa gelada madrugada procurou pelo padre em sonhos gritando o seu nome. Despertou sob o olhar das religiosas.
Quando apareceram os indícios da gravidez cessaram os chamados do adorado padre. A vida de Mariana agora era dentro da clausura. Sobre o catre imundo, rezava. A cada dia com redobrado fervor. No banquinho de madeira o copo d’água e a santinha de barro que ganhou da mãe no dia da primeira comunhão. Sorriu aérea, lembrança boa do menino que não a deixava chorar nem sentir fome. Concentrou naqueles olhos. Ponte para o mar profundo, domínio de venturosos afogados, liquefeitos pelas profundezas salgadas.
A madre superiora e a outra entraram caladas com a infusão numa xícara alta. Era para tomar tudo, gota a gota. Aquilo amargava a boca, tanto, tanto que nos últimos goles precisaram segurar com força o maxilar da pecadora para que não desprezasse a bebida com seus engulhos.
De seus olhos correram um quieto pranto. Sabia que sua vida era um sopro agora. E que não havia tempo para ressentimento e dor.
A missa estava cheia. Ia ter procissão em homenagem à padroeira. Mariana apareceu com a face descorada na celebração da eucaristia e recebeu das mãos de um assombrado padre Gregório a hóstia sagrada. Ainda estava com o corpo quente de Jesus em sua boca quando se precipitou para beijar a boca do padre com toda a ternura que tinha.
Fez-se um silêncio, depois um suspiro quente e coletivo da audiência. Mariana articulou baixinho no ouvido do religioso o cântico que entoava aos seus ouvidos nas noites de luxúria: -“Levou-me à sala do banquete e o seu estandarte sobre mim era o amor. Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor.” E seu pensamento já não reprimia a força de suas palavras.
- Gregório, Gregório, Gregório! Que nome tão lindo! Nosso amor é abençoado por Deus, meu padre, meu amante, meu amor!
E continuava no seu arrebatamento profundo:
- As portas devem estar abertas para que entrem os ladrões, os bêbados, as mulheres sem homem, as prostitutas, os pagãos, todos os filhos bastardos. Jesus disse que o amor deveria estar sempre à frente de toda a convenção ou lei criada pelos homens. Como seria pecado o que já nasceu amor?
De sua boca jorrava um sangue grosso. Uns já segredavam que o sangue também brotava do meio de suas pernas. Vozes acanhadas e destoantes se puseram a ensaiar baixinho o stabat mater com o apoio majestoso do órgão.
Mariana foi carregada outra vez para a clausura, em segundos o miserável catre era sangue só. Os olhos reviravam, assim como os dedos das mãos e dos pés, a febre queimava transtornando ainda mais os seus sentidos que se exaltavam em alarmantes clamores. A morte dava seu espetáculo ainda dentro da vida.
Uma luz que ia e vinha adentrou a janelinha do triste quarto e Dimas pôde ver aquele corpo amado que agora agonizava. Fechou seus olhos e como um cego tateou o contorno do rosto de Mariana implorando em pensamentos que Deus fosse justo e o levasse com ela.
A voz de sua delicada dama ainda era fresca e cristalina, viajando, doce, até os ouvidos do menino. A própria Mariana agora já era só o seu som:
- O amor deste mundo é preguiçoso e não possui asas para erguê-lo até o infinito... O sol entrava pela fresta da janela de manhã e tudo estava lá, toda a força, a alegria, a esperança estava no sol que invadia a manhã fria pela janela... Sabia que Deus estava lá, ninguém precisou me dizer... Lá do farol velho o menino ouvirá melhor a voz de Deus... Daquele coração imenso brotarão flores de cores nunca vistas e eu cantarei para ele sempre que houver dor... Eu cantarei a canção mágica e não haverá mais nenhum temor.
Num admirável esforço, a agonizante proferiu um nome:
- Dimas, tem muito o que fazer... Leve o alforge... Atravesse os mares... Não deixa ficar lá a fome, nem o sofrimento... Limpa as feridas Dimas... Cuida... Abre as portas do mundo para Deus entrar...
E sorriu seu último sorriso, imergindo na vastidão azul daqueles olhos que havia conservado para si.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O Regresso do Capitão

05:05 POR Ana Carolina Paiva 4 COMENTÁRIOS
Da porta para fora o tempo estava bom. Firmou. A chuva que caíra por três dias sem trégua agravara a gota, a artrose, a artrite reumatóide, assim como a otite, a sinusite, a bronquite.

Naquilo que sua vista fitava havia mesmo um brilho incomum: o verde na montanha, o branco nas pipocas saltando na parte interna da carrocinha; o negro no asfalto e no rabo do gato por entre as linhas horizontais acobreadas do portão eletrônico de metalon do vizinho enjoado; até o azul claro no céu e escuro na porta da birosca inquietavam a vista.

No caminho até a praça, sob um assente aconchego solar quase não sentia dor e caminhava sem precisão de parar a cada três passos para tossir ou respirar melhor.

Avistou o banco vazio, logo desanimou: levantar daquele banco seria tão arriscado quanto mortificante. E se tivesse uma zonzeira? Lá estava o enxame de rostos estranhos a lhe oferecer o braço e tirá-lo da passagem como uma coisa despencada congestionando a via pública. Pois sim!

De pé, encostou-se à figueira. Com os olhos fechados, esquadrinhava o esplendor daquela manhã. As narinas dilataram. Sorveu do jasmineiro, das jaqueiras, dos corpos suados que passavam, de toda a atmosfera candente da praça.

– “Manhã, tão bonita, manhã...” Expulsava a canção num solfejo baixinho e destoante. Cuidava pra não perder a voz. Continuamente projetava um ruído qualquer, embora o som abatido e agudo daquela voz decrépita não fosse capaz de ocultar entre a pausa dos silêncios o rigor da mocidade: de jamais confiar, de não se entregar, de só se valer.

Nesse dia de calor a alma era invadida por aquela estrangeira alegria. Justo agora que já não se importava com a solidão, o silêncio, os fantasmas da casa, vivendo com ajustada fleuma a expectativa da chegada da morte, num abandonar-se exemplar, sem alardes.

Tudo havia sido esquematizado com a mortuária de Zé Reinaldo, o sobrinho de Anchieta. Pulando a etapa do velório e do funeral, o traslado das cinzas até o Rio Carangola em Tombos ficaria a cargo do filho de Elvira, a dona da padaria. Já tinha um combinado por procuração e tudo com a mãe do rapaz, que ainda era menor de idade, mas tinha uma queda pela morte e realizaria o serviço com todo gosto. E agora isso. Essa vontade de viver!

- Será que encontro o paradeiro dela? Articulou o mais alto que pôde, puxando o ar com força, tentando se apoiar na figueira com as costas para não despencar no chão. Era oxigênio demais para um corpo tão combalido. Logo a vista escureceu trazendo um aroma de maresia. Desabou sob a terra áspera.

- À toa, Ifigênia fitava o mar. Longas horas... Abandonada sob o sol. Namoro com o mar. Possuída pela brisa marinha, todinha. À toa... Era feliz perto de toda aquela água...

Falou muito arrastado, querendo ar. Olhava fixo na direção da moça que apanhava sua cabeça alva entre as mãos. Ao seu redor, outros desconhecidos:

- Esse é o capitão?

- Não tinha morrido?

- Parece que se esqueceram dele...

-Melhor mandar pro hospital. Ajuda aqui a levantar!

- Não! Pensou que gritava, mas a voz era um fio.

- Preciso encontrar uma moça. Ifigênia. Disse que me esperava. Que quando voltasse, procurasse por ela. Nunca voltei... A guerra é uma coisa muito feia. Fui-me embora em novembro de 1944. A gente usava o jornal socado dentro do coturno, dava frio nos ossos. Era eu e Vicente. Companheiro bom! Usava um perfume adamado, presente de Rosa, a prometida. Dois soldados rasos. Da infantaria, vejam bem! Deixei Ifigênia com o mar que ela tanto adorava. Ifigênia me deu um bentinho milagroso feito pela mãe dela que era muito religiosa, metida a beata. Deu-me também o retrato dela de maiô. Fui-me embora pra nunca mais voltar...

No meio do cardume de curiosos uma menina muito magrinha de vestido vermelho ralhou:

- Fugiu de casa de novo, danado?! E sem comer! Vem! Mandaram te buscar.

- Conheço você! É a menina que roubou minha baioneta enquanto eu cochilava. Estou definitivamente à mercê do inimigo agora. Percebem a gravidade da coisa?

- Dá aqui tua mão. Ifigênia mandou te buscar.

- Quem é Ifigênia?

A menina piscou o olho, malandrinha: - Ifigênia é uma dama que tem poderes extraordinários. Com suas mãos de fada ela cura as pessoas doentes do corpo e da alma. Vem!

O capitão foi andando até o mar de braço dado com a menina de vestido vermelho que era só cuidados e doçuras com ele.

- Tá aqui o fujão, vovó. Agora eu vou nadar.

- Hoje pensei que o senhor não voltava mais! É só o tempo estiar que se embrenha no meio da multidão. E do banho de sol? Se esqueceu foi?

Ifigênia era uma senhora magra como a neta Clarinha, tinha os cabelos prateados quase na altura dos ombros, linhas delicadas e olhos verdes grandes, agateados, brilhantes. Era bonita. O capitão olhava perplexo:

-Ifigênia? Você me esperou mesmo. Viu que trouxe de volta o seu retrato de maiô? O bentinho não sei onde foi parar...

-Não tem importância não. Lembrou de mim? Mesmo assim tão velha?

- A senhora ainda é a mais formosa de todas.

- Dá tua mão. Ih, tem que cortar essas unhas!

Ifigênia olhou bem fundo nos olhos pequenos e opacos do capitão. Segurou sua cabeça entre as mãos, passou os dedos delicadamente sobre o seu rosto, tracejando o contorno das sobrancelhas, o escarpado do nariz aquilino, a boca ainda bem feita que súbito beijou com afobação para logo repetir o gesto com toda a delicadeza:

– Amanhã, vamos a Paquetá! Disse Ifigênia num rompante antes de se virar para admirar outra vez o mar. Ainda sem disposição para sorrir, o velho combatente encheu o pulmão de ar num suspiro serenado de quem finalmente chegara a uma paragem segura e acolhedora.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Água e pedra

07:53 POR Ana Carolina Paiva 6 COMENTÁRIOS

Me resguarda do banal
Me endoidece, revira pelo avesso
Sem eixo, sem eira, sem beira
Engraçado como gosto
Do gosto disso

Espalho o meu organismo licoroso
Sob sua natureza sólida, segura, robusta
Logo eu
Uma borboleta exaltada
À deliberação do vento

Pujança de pedra
Que não machuca
Me arrebata pra frente
E não me força!
Cala, olha
Tira da terra
Não deixa quarar no sol

Volto pra dentro
Embruteço
As mãos frias
Tateiam a escuridão
Descoro à noitinha

Um galope distante
Bruma, fios de luz tão clara
Já não quero fitar!

Quase voa
Adentra a densa mata
Em sua humanidade
De cavaleiro andante
Sabedor que é
Das veredas tortuosas
Das fontes de água mais doce
Do paradeiro de invisíveis artesãos

Abri os olhos
Já não enxergava
Juro que ouvi!
Parecia mesmo o trote do corcel
Desatando o soturno bosque
E suas torcidas grinaldas
Ataviadas com delicados atilhos
Fúlgidos!

Fechei a porta com força
Quando a claridade bateu
Cravei sofreguidão
Na desfaçatez
De sua querença indomável

Na feira dos avessos
Estruturas inacabadas
Vultos indistintos
Cores que berravam

Débil alteridade
Disposta em leilão
Arrematada?
Por uma pechincha!

A boca escancarada
Brincava de trocar perfídias
Embaladas em papel de seda
Decoradas com as mesmas
Flores do campo – secas e empalhadas -
Que velaram a minha meninice
Carcomida
Por aquelas tardes quentes
Onde não se dormia
Com tanto silêncio!

Evoquei suas mãos
Que reproduziram o calor
O calor que era nosso

Assim passaram dias inteiros
Sol, sal e ardor
Tardes com lágrimas
Que choviam de meus olhos
Noites que desafiavam
Aquela estranha e inata fé
Que se abalava agora 

Ousas beber da minha água?
Barrenta, fria, tóxica?
Não há antídotos
Ao fraco e febril combalido
Resta repouso e perseverança!

Caso resista
Que se apresente
Em sua autêntica forma 
Mesmo que eu feneça
Reduzida a cinzas
Dissipadas no vento.

               

               
               
                

sábado, 6 de outubro de 2012

Pequeno Poema de Manhã

20:08 POR Ana Carolina Paiva 1 COMENTÁRIOS

Atávico som impregnado

Acossado antes da aurora

Foge por entre estes dedos

Pensamento cativo em cotidiano

Seca a cicatriz

Manhã que invade, tocando tudo

Sozinha na tarde, o insolente silêncio

Noite além, brilhante, louca

Sempre um mundo e essa vontade que não passam