Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

domingo, 12 de junho de 2016

Quem tem o zap do Carlos aí? Uma crônica poema ou um poema crônica

08:43 POR Ana Carolina Paiva 5 COMENTÁRIOS

Sempre fui conectada com Carlos, o homem que eu amei. Tudo indicava que ele não fosse ficar para semente e assim foi. Um dia Carlos entregou o boné e caminhou entre as nuvens em linha não muito reta num passo só seu, meio dançante, os braços soltos quase deslocados do corpo, as pernas ágeis de andarilho, o semblante de uma brandura presente e concreta.

E a voz era a voz da juventude, da alegria, do silêncio de bailados submersos, única capaz de elevar aquele seu vitelinho do poço escuro dos temores e angústias da meninice. Então eu voava com ele, na vastidão das esperanças e das alegrias que me fazia despontar com seu olhar-luz do sol- caleidoscópico, colorido e candente!

Senti tanta saudade daquele meu amigo, o pai dessa menina Ana Carolina que cresceu e ainda precisava ficar por aqui para continuar aprendendo sobre esse mundo de coisas concretas, pesadas, de cores desmaiadas. Um mundo com tão pouco ar!

 –Volta papai e tira meus pés delicados de dentro desta lama aqui! E fez-se um silêncio impossível de se ouvir. Nenhuma palavra, nenhum telefonema, carta, SMS, Skype, Messenger, whatsApp, nada, nada!

O coração disparou, correu por paragens inóspitas de perdição e tristeza. Gosto sem sabor, desgosto só... Se meu amigo não estava mais aqui comigo, só a dor lancinante se sentaria em seu lugar. No assento vazio, o som do mais triste adágio...

Quem agora me enlevaria e mostraria aquele mundo fechado, teso, pegajoso com sua poderosa luneta mágica de amor, esperança e graça? E forjaria o barquinho de papel velejando comigo por entre as curvas sinuosas do rio que não interrompe e segue e pulsa e se lança e vive e vive e vive! Sabendo que se aglutinará à vastidão do oceano: Meu pai, meu amor, meu querido!

Posso te sentir por entre meus finos dedos como uma canção que aprendi a tocar no meu pianinho imaginário. Como estiveste o tempo todo aqui e agora e eu não pude te ver, valoroso coração apartado de mim?

O nosso barquinho continua a correr como sempre foi e sempre será, não é? Quando fecho os olhos, a mesma voz aluada e louquinha a plantar sonhos neste teu jardim que cresce e cresce e cresce!

O som é desarmônico, as almas deste mundo correm cegas e desconjuntadas para o abismo sem dar as mãos e eu sou só o teu bichinho frágil e diminuto! Ainda assim, meu pai, como a chuva que cai e o sol que levanta e se deita, como todas as estrelas que brilham mesmo entre as nuvens e os rebentos que nascem e emitem o seu som de vida posso ouvir o som do teu silencio em minha jornada naquele barquinho que projetaste. Tua voz, teu coração batendo. Olho para o caminho. Já agora não sou só aquele pianinho triste. Sou eu, você e toda a nossa orquestra correndo pelo rio que um dia será mar.




5 comentários:

  1. Que Lindo Ana Carolina. Seu texto é pura poesia. Adorei.

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  2. Karamba!!!!! Lindo e lindo e lindo! Me fizeste chorar também porque há muito aí que lembra meu pai poeta, romântico... Eu não tive um pianinho imaginário embora eu menina tenha desejado ter um de verdade, mas tive uma cítara que ele me deu. E um livro com linda e enorme dedicatória: Perdas Necessárias...

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  3. Saudades traduzidas em poesia. Lindo de ler e de sentir.Beijo no seu coração.

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  4. Como é possível ter esta capacidade de escolher as palavras certas, saber usá-las adequadamente para transformar o fardo inelutável da grande ausência dos que nos são queridos em imagens de tão intensa e bela simplicidade?
    Como organizar estas múltiplas aguarelas intimistas, sucedendo-se em matizes plenos de gradações harmoniosas, quadros vogando nas águas ritmadas do grande e largo rio da vida...?
    Só mesmo a fina sensibilidade de Ana Carolina para conseguir com tanta singeleza (e eficácia...) esse milagre da salutar reconversão da dôr e da perda em disponibilidade para a aceitação, em crescimento interior, em plenitude pacificadora, em lenta e poética construção do caminho da sabedoria...

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