Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Caça

16:50 POR Ana Carolina Paiva 5 COMENTÁRIOS
Os treze anos incompletos desafiavam aquela organização interna que havia conquistado desde as 11 horas de uma quarta-feira meio pálida quando, sem saber por que, adquiriu o estatuto de criatura viva.

Teresa costumava se esconder nuns cabelos desgrenhados que emolduravam uma cabeça sem aprumo algum. Era o pescoço fino que mal se sustentava e pendia feito pescoço de galinha quase degolada.

Por vontade própria se absteve de olhar para frente ou para os lados de tal modo, que deu pra colecionar os restos que habitavam seu restrito campo de visão: de tampinha de garrafa a cédulas do mais alto valor, de botão de blusa a carretel sem linha, de casca de banana podre a relicário de prata cravado de diamante.

Quando era noite alta e podia abrir os olhos sem que pudessem lhe mirar, tocava o próprio corpo com mãos de dedos ágeis que fotografavam memórias de contornos, saliências e reentrâncias que escapavam aos olhos na luz do dia. Assim notou uns arremedos de peito que pareciam estar ali há algum tempo. Ambos espevitados, um mais apressadinho que o outro. Era só o que faltava! Peitos, ancas, um corpo sinuoso de mulher estavam a afrontá-la, a debochar de si, a lhe tirar o sossego.

O antigo corpo fugia de Teresa como o diabo da cruz e algo novo e exuberante lhe assumia o lugar, rescindindo o contrato instituído: o de que em breve o ar lhe faltaria sem qualquer revolta ou ressentimento, como se faltasse água depois de saciada toda a sede. Mesmo assim adormeceu e pela primeira vez sonhou que sonhava.

O sol penetrou com força os olhos que já não eram mais seus, eram dois faróis reluzentes. Levantou-se tropeçando em estilhaços de infância abandonados pelo chão e viu no espelho o descolar da antiga carapaça da face seca e torta de uma meninice entre morta e aprisionada.

O mundo, outrora insípido e diáfano, passou a ser observado com uns olhos vorazes de predação:

- Correu para tomá-lo, todo. Ruas, avenidas, carros, postes, letreiros, a cor da manga fruta, da manga da blusa, o sapato envernizado, a ponte suspensa sobre o reluzente oceano e sob o mesmo, os peixes, os corpos afogados, os meninos nadando nus. A casa, a porta, o andaime, o bailado de indivíduos andando a esmo, outros com objetivos despropositados. Pessoas, pessoas, pessoas... Foi quando a viu e logo percebeu que tudo o que era beleza e doçura havia sido sugado para dentro dela e mesmo a graça do mundo agora servia exclusivamente de moldura para o sorriso dela, o sorriso que iluminava todos os caminhos. Não lhe foi suficiente olhar, queria bulir como criança que não admite simplesmente contemplar um brinquedo.

Realizou todas as mesuras que conhecia para agradar a desconhecida: cantou, dançou, desempenhou um número de acrobacia na lira e outro no trapézio, confeccionou presentes e manjares, adornou os cabelos da outra, sorriu o seu sorriso mais encantador. Entretanto, nada do que fez pareceu suficiente para enternecer o coração da estranha criatura adorada:

- Já tenho uma menina só minha e não preciso de outra.

- Não sou uma menina qualquer. Estive morta até ontem à noite e neste momento estou aqui falando, andando, pensando. Coisa que se faz quando se está bem vivo. Nunca precisei de uma como você. Sozinha, bastava-me. Hoje preciso de você como do ar. Até ontem à noite, passava muito bem sem nenhum dos dois.

- Não pense que consegue uma mãe a esta altura. Já é muito crescida. Porque não tem sua própria vida? Já não está na idade de se casar? O que eu poderia fazer por você agora?

Teresa já não ouvia coisa alguma do que a desconhecida pronunciava. Parecia completamente magnetizada. Sua visão se tornou turva e as pupilas dilatadas. Um olhar estático de gato diante de passarinho caído do ninho.

- Que cheiro bom! Disse já com ar de senhorita segura de si: -Sabia que este cheiro existia, pois sempre esteve na minha cabeça. Só não sabia de onde era. Era seu! Seu! Seu!

A púbere senhorinha estava convencida de que dali não sairia sem levar a outra consigo. Após soltar uma alegre gargalhada, passou a sustentar um tom de voz fleumático, acompanhado de gestos hieráticos que induziram suas mãos à pequena mochila em formato de urso atrás das costas, de onde sacou uma arma de fogo:

- Me leve pra sua casa e pra sua vida como se eu tivesse nascido de você. Quero também um nome, um sobrenome e um caminho que eu possa percorrer. Por favor, não me obrigue a usar isso!

5 comentários:

  1. Pois é Xarazinha, revivi minha "fase Teresa".

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  2. Teresa
    que se surpresa
    sonho
    e assim é
    mulher

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  3. Li todos os textos e gostei muito.
    Aguardo ansioso por mais uma obra literária de Ana Carolina.
    abs

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  4. Depois de uma longa ausência, Ana Carolina está de volta, e em boa forma, conduzindo-nos sem medo pelos caminhos mais ocultos do nosso ser. Notável o adensamento da situação e o seu culminar no surpreendente final.
    Esperamos novas incursões.

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  5. Estava à "caça", de algo assim....minha menina, nossa menina, você demora mas, quando volta...é sublime, acho que essa a palavra.
    O melhor, é que leio por dois...lendo e imaginando a felicidade do outro...lá, no infinito!

    Essa Tereza, somos todas!!...mas acho que só
    você, "coisinha", pra revelar todos esses os segredos!

    Que delícia é vir aqui, beber desse "nectar" tão herdado!!!!

    Apertado, e duplo, abraço!

    Lúcia

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