Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Sacoleira

16:39 POR Ana Carolina Paiva 1 COMENTÁRIOS
Quando trouxeram a menina embrulhada na manta, o simplório pai desejou para ela quase tudo o que havia desejado para os que nasceram homens. Que ela se casasse, que tivesse filhos, que deixasse tudo na mais perfeita ordem. Esqueceu-se de desejar que vivesse. Possivelmente não agiu de caso pensado, fora só esquecimento.
Mas isso não seria essencialmente um problema, já que sua permanência no mundo ia seguindo seu rumo de modo sólido, prático e sem grandes percalços.
Era toda ela Bonsucesso, no máximo deixava-se arrastar até Ramos e com certa boa vontade do destino, perdia-se por ramificações geográficas que desaguavam nalgum logradouro margeado pelo caminho ferroviário da Leopoldina. Não a alegria e a brejeirice suburbana, não a visita ao mercadinho de flores na Praça das Nações, não o armazém antigo em sua excêntrica e abusada penúria no caminho para a Ilha do Governador, não os meninos no chão com a bola e nos telhados com a pipa, não o casario assobradado de velhas mangueiras abandonadas, morcegos e pouca luz mesmo, não o passeio pelo comércio local com seus artigos ordinariamente convidativos: calcinhas, sutians, top, short de lycra, stresh, vestidinhos floridos, toalha de mesa, toalha de banho, pano de prato, capa de fogão, capa de almofada, enxoval de bebê.
Disto ela passava longe. Desprovida que era de afetos, de verdadeira coragem, de qualquer vontade ou simples alegria. Todavia, impregnou-se do bairro, entranhou-se nas paredes de suas casas, no vício de seus caminhos, na decrepitude de suas vidas.
O marido e os filhos ela os enfeitava e expunha aos domingos, em casamentos e enterros, mas era das entranhas do bairro que ela se alimentava, crescia e avantajava-se, compactando-se. Era surpreendentemente gorda e quadrada, com os quatros ângulos de noventa graus muito bem demarcados.
Numa tarde quente e úmida, a sacoleira deu com ela pela primeira vez. Não pensou que fosse tão dura, nunca tinha visto gente assim. Uma dureza de defunto.
Vendia montes de um pouco de tudo dentro do sacolão. Vivia até com certa dignidade do ofício de sacoleira. A economia de seu negócio era aquecida com as promoções que criava a todo momento: amostra grátis, empréstimo por tempo indeterminado, promoções relâmpago, leve dois pague um, leve cinco pague três. E se soubesse pechinchar, o cliente levava os artigos esquecidos no fundo da sacola pela metade do preço.
Diante da magnífica fragilidade da vendedora de artigos tão supérfluos, aquela mulher avantajada e quadrada, desconsertava-se:
– Isto não serve para nada minha filha, ninguém se interessa. E gritava como se todos ao seu redor fossem surdos.
A sacoleira ficava cada vez mais assustadoramente frágil em sua insistência flexível de bambu, dobrando e voltando, uma debilidade soberba de flor fresca e orvalhada. A outra cada vez mais dura, pesada e quadrada: – Que serventia tem este tipo de coisa? Não se faz nada concreto com isso minha filha!
A abrutalhada fêmea tomava conta de todo o espaço como um trator e a outra, que quase não tinha voz, ocupava o mais parco espaço do ambiente. Era a própria altivez. Suave, cínica e dona de notável insistência descarada:
_ Leve este pequenino, só para experimentar.
_ Este pequenino não me tem serventia.
_ E este um pouco maior, tem uma cor vibrante. Combina com seus olhos.
Insistia tanto que fora capaz de desequilibrar a inepta e inútil existência da outra. Implacável, segurando a respiração, virou de uma vez para o chão o gigantesco sacolão e de lá foram saindo os mais variados artigos. Festa para os olhos de qualquer cristão, cristão novo, evangélico, muçulmano ou macumbeiro: um traje de odalisca cravejado de diamantes, um Clark Gable sem cigarro e sem bigode, iguarias preparadas, como de praxe, pelos deuses, massagens eróticas em mãos firmes de negões do Senegal, outras coisas firmes de negões do Senegal.
A vendedora mais parecia uma sádica. E tem mais. Olha aqui: este casal de grilos nunca falou, mas cantam afinado que é uma beleza, lêem partitura, tocam oboé. Vê o caminho abobadado para os Jardins do Éden? Ou prefere estas esculturas em ouro de Fídias, desencontradas pelos arqueólogos? Neste potinho mínimo, a fórmula da juventude eterna. Uma tragédia grega encenada pelos deuses do Olimpo? Perdoe a indiscrição: o que diria da Vênus de Boticelli em sua cama? Hoje em dia neste negócio é preciso ser moderno, não é? Riu marota, a fresca flor do campo.
A outra não ouviu a gracinha. Estava hipnotizada.
_ Quero aquilo ali! Fingiu que não sabia, mas já tinha certeza do conteúdo da embalagem. Ela era quase doce.
_ Aquilo? Aquilo ali no cantinho?
_ É, aquilo. Pago o preço que quiser.
A sacoleira disfarçava, avexada. Enquanto a parva, vidrada no pacote, arredondou-se. Quase não se via sua imortalidade de pedra.
_ E esta réplica de Paris? Não dura a vida toda, mas tem garantia! Pode até trocar por três semanas de Veneza. Com gôndola e um gondoleiro viril.
_ Não quero. Prefiro aquele outro.
Sua insistência ressaltou na outra a latente maldade. Um sorriso de manequim brotou de uns olhos pequenos, redondos e brilhantes de afilhadinha de Lúcifer.
_ Ah, esse não vai dá mesmo. Hum-hum. Não lhe serve. Não combina.
_ Eu quero Copacabana! Eu quero! Quero todinha, quero tudo que tem lá, quero o mar e o horizonte.
_ Já é tarde Copacabana pra você. Agora não dá mais, o tempo passou. Só isso. Você não vai pegar a coisa, entende...
A outra que não era de questionar, súbito conformou-se. O espetáculo desarrazoado cessou.
_ É, né?
E fechou-se novamente em sua rigidez quadrada, insípida, imortal, sem horizontes e sem saudades de Copacabana.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Arábica Típica

06:39 POR Ana Carolina Paiva 2 COMENTÁRIOS
Nunca entendi nada deste negócio de café, nem mesmo demonstrei interesse. Até que um dia desses Maria me falou que o adorável casal de franceses havia embirrado com uma certa categoria: “Este tem muita cafeína, é menos aromático, não é arábica, só pode ser robusta...” E eu fiquei com aquilo guardado numa gavetinha acanhada lá embaixo daquela pilha de coisas que eu costumo guardar em mim desde que comecei com este negócio de pensar seriamente nas coisas.
Ontem, me arrumando para o carnaval, antes de enfrentar sozinha o metrô, os mascarados, a folia e o sol a pino, liguei a tv com aquela vontade habitual de ser simples e feliz. E em comum acordo comigo mesma entendi que enfrentar o carnaval de rua logo pela manhã seria um bom começo.
Deparei-me com um alegre repórter que mostrava para o Brasil o cultivo do arábica típica em Taquaritinga do Norte. Aquele nome imediatamente me remeteu à gavetinha lá de baixo. Tenho cisma com palavras: arábica, que nome tão colorido, mandão, decidido. É nome de café, é? É, disse o sorridente moço ao som de um frevo de bloco. Aquele mesmo que eu vivo cantarolando.
O que era só um nome consubstanciou-se em canção, espaço geográfico, cheiro de descoberta. Foi quando o odor concreto do café que eu passara, impregnou-se em mim como um beijo, um carinho ou mesmo uma carícia, fazendo-me acreditar por um infinito instante que não havia sido eu mesma a passar o café, mas outra pessoa, alguém que me dedicava no mínimo simpatia e, na melhor das hipóteses, amor.
Fui tomada de corpo e alma por um grande ufanismo, um regozijo de ter nascido e de viver no Brasil, o maior produtor do melhor café do mundo inteirinho. No meu êxtase privado, um pouco antes de colocar o véu de espanhola com o trocito arriba e não tomar a minha xícara sagrada de café, pois já nem precisava, lembrei do meu primeiro contato com esta bebida que me cerca de mistérios. E como sou dada a despertar em mim mesma esta sensação!
Minha memória, intacta, observava papai de perto, ao lado do seu café melado depositado num copo de vidro vagabundo, sorvido com certo desleixo elegante nas ruas do centro de Fortaleza, quando eu perambulava com ele e tomava ao seu lado o cafezinho, me sentindo importante por dividir este ritual com aquele homem que fora meu pai, na ânsia de sorver além da bebida quente e doce, cada detalhe escancarado e oculto de sua presença humana, que eu de algum modo antevia que me faltaria em breve.
Passado o turbilhão sentimental, ansiei por conhecimento e fui bisbilhotar o café e agora vejam vocês, encontrei mais um motivo para amar Pernambuco: o cheiro e o gosto do arábica típica, descendente direto da primeira safra de café que chegou ao Brasil em 1727, cultivado cuidadosamente como uma gema preciosa, à sombra de jaqueiras, mangueiras, ingazeiras e quiçá ao som do pífano e da orquestra de frevo. Este pequeno infante trouxera de volta os cultivadores da terra que haviam migrado. Mas a terra pernambucana ficara o tempo todo lá, esperando pelo retorno deles, impregnada que estava dos frutinhos, que eram alimentados diariamente pela natureza: o magnetismo das rochas sob o solo, os arvoredos e sua sombra feérica em cujo silêncio trabalhavam fervorosamente pequenas sílfides doidinhas de café ou melhor dizendo, ligadonas de café.
Sabendo que seus bastardinhos abandonados agora são reis, os pais desajeitados colhem os frutinhos grão a grão e os depositam com todo o cuidado em sacas higienizadas para que sigam até o porto de Suape e de lá para o mundo.
Imagino que neste momento, sentados em sua ampla e bela varanda na Côte d’azur, repleta de Mediterrâneo, os meus amigos franceses podem estar tomando em alegre comunhão uma xícara do nosso arábica criado com a ajuda das sílfides que “deram uma força” pra mãe terra pernambucana que havia sido abandonada. Que vexame! Mas mãe é mãe e está sempre lá dando um jeito, mesmo na adversidade, nutrindo e amando os seus rebentos, para que eles cresçam fortes e belos e um dia se tornem reis.