Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Pires... Quebrou...

19:54 POR Carolina Rêgo Barros 1 COMENTÁRIOS
Esta semana teve terremoto no Haiti. Um país que já estava sangrando e a natureza se anuncia no seu aspecto mais violento. Matando, mutilando, ceifando. Na mesma semana a Hebe vai parar no hospital com um câncer raro no peritônio. Sorte da Hebe que tem a otimista Ana Maria Braga ligando pra ela todos os dias no meio das suas férias, fora do país.
Eu acredito na beleza da vida e é por isso que eu grito, me descabelo, reclamo, rôo todas as unhas (mas mando arrumar na outra semana, pois eu sou otimista!).O que eu não aguento é o otimismo acéfalo, aquele que passa a mão na cabeça porque gritar não resolve, espernear não resolve, dá murro na parede não resolve. Esse otimismo é tão cruel, porque quando o sujeito está triste e desconectado com o mundo, ele não tem vontade física de rezar o salmo 23. Fica cego mesmo, nem vê o terremoto que passou arrasando. É feito fome, dor de barriga, fica como criança pequena, que não quer sentir mais o que lhe faz tanto mal.
Aí é que entra o pires. Meia hora de recomendação e mesmo assim o pires quebra. Todo bonitinho, parte da coleção: quatro xícaras, quatro pratinhos de bolo, quatro pratos rasos, quatro pratos de sopa e... três pires! Todos coloridos com motivos florais. Pode parecer uma besteira, a mais indecente declaração de futilidade e desprezo ao semelhante, diante das chagas deste mundo de meu Deus. A médica missionária morta enquanto ajudava as criancinhas e o pires quebrado ganha corpo, forma, invadindo todos os buracos do pensamento.
Conheci uma menininha que nasceu feliz, como todas as menininhas nascem. E num dia sem importância, um pires idiota quebrou na sua mão. Não gostaram. Ela quis dizer alguma coisa, que fora um acidente. Não gostaram mais ainda. Daí pra quebrar outro pirezinho foi um pulo, ela não queria quebrar, mas eles pareciam debochar do seu medo e se suicidavam na sua frente, rindo e fazendo gracinhas obscenas durante seus derradeiros mortais acrobáticos. Obviamente por estarem na condição de pires, não tinham consciência da morte, tampouco de que se despedaçariam, transformando-se em cacos.
Os copos de geléia nunca quebravam, mas os pires, era só chegar um pouquinho mais perto que os danados se jogavam do nada, escorregavam da mão, das duas mãos sequinhas, das mãos segurando firme com o pano de prato atoalhado. Sempre, sempre, sempre. Virou febre, mas a menina não aguentava mais aquilo porque tinha um pessoal que protestava e não deixava ela crescer por causa disso: - "Você não pode crescer e virar uma mulher adulta, centrada, mãe de família, realizadora de projetos bem sucedidos, sua quebradora de pires!"
Um grito lancinante e aquele estrondo: copinhos, pratinhos, santa marias, swarovskis, cristalzinho disso, daquilo outro, no chão! Ouviram? Quão harmonioso pode ser o quebra- quebra de utensílios domésticos quebráveis, quebrados na hora e no momento certos!
Até hoje o pires lhe vem na sua lembrança. Para o caso do fenômeno se repetir em casa alheia, a menina, já crescida, deu pra colecionar pires sobressalentes em sepulcral segredo. Tem que ser igualzinho aquele que quebrou. Ninguém mais pode reclamar que ela lhes falta com o devido, pires!