Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sem Colher de Chá

07:24 POR Ana Carolina Paiva SEM COMENTÁRIOS
Quase sempre quando se levantava no meio da noite, tropeçava na mesinha ordinária do canto do quarto com o dedo mínimo, que parecia ter um defeito de nascença e ficava arqueado para o lado como se desejasse fugir da falange mãe e ir encontrar o mundo sem pensar nas consequencias da imprudência de tal ato.
Há tempos desistira de gritar, acabando por adquirir o hábito de se contorcer até a posição fetal, desfalecendo ao encontro do chão, enquanto observava o correr do parco fluxo salgado de lágrimas há muito conhecidas.
Aquela sensação não era boa, era real como o dia, a noite, o sono, a vigília, o barulho dos carros, os passos dentro da noite. Até o último suspiro chegar, trazendo uma sensação de conforto indescritível que ela gostaria de manter pela noite afora.
Não adormeceu ali e lamentou mais uma vez, já que em todos esses anos, jamais, em hipótese alguma, se deixara adormecer em qualquer tempo e lugar. Tudo pesava e se afastava do seu alcance. Acostumou-se. Como se acostuma com o frio, a fome, a dor.
O dia enfim coroou, nasceu. Invadiu sem cerimônia o quarto, o colchão velho no chão, o rosto dela que abriu os dois olhos com força e ficou assim por quase um minuto. Finalmente sentou-se, olhou para baixo e permaneceu imóvel por quarenta segundos. Despertar e viver doía-lhe os ossos, o estômago, a cabeça, o nariz, os ouvidos.
Chegava ao banheiro com a dificuldade de quem havia participado de uma pequena batalha, ou enfrentara a fila da sopa dos miseráveis, ou como se ousara chegar à porta do metrô no horário do rush com uma mochila nas costas, sacolas de compras e na mão esquerda – sendo destra – um bolo confeitado. Mas chegou e ficou ali, por mais trinta segundos observando o seu rosto desfocado pelo espelho e pelo olho embaçado:
_ Certa ocasião tive uma mãe que era a alegria dos meus olhos. Queria que ela fosse a todas as reuniões da escola, embriagando a tudo e a todos com seu perfume amadeirado, seu timbre grave, de projeção impressionante, sua presença, de uma feminilidade assustadora, aliada a uma força quase viril que não provinha do seu corpo de mulher delicado e bem feito, mas de algum ponto de si, que eu jamais pudera identificar com clareza. Cabelos muito negros, uma boca carmim, pequena, desenhada à mão, um andar seguro. Suas roupas, um deleite para mim, mocinha, admiradora silenciosa dos trajes ousados com que ela se apresentava em sociedade. Nenhuma, uminha sequer, se vestia com a sua originalidade e o seu estilo. Era vanguarda minha mãe, do dedinho do pé ao último fio de cabelo!
O texto estava decorado.